Tecnologia e saúde mental

Por que é mais fácil desabafar com uma inteligência artificial do que com uma pessoa

Muita gente tem levado o que sente para uma tela em vez de levar para alguém. Antes de julgar essa escolha, vale entender o que a pesquisa mostra sobre por que ela acontece — e o que ela consegue e não consegue oferecer.

Rebecca Mota | CRP-MG 04/8038

Alguma coisa mudou na forma como as pessoas lidam com o que sentem. Não é raro hoje alguém abrir uma conversa com um assistente de inteligência artificial às duas da manhã e escrever ali o que não conseguiu dizer a ninguém durante o dia inteiro. Escreve sobre o casamento, sobre o medo de fracassar, sobre a raiva que sente do próprio pai. E, com frequência, sai da conversa se sentindo um pouco mais leve.

A reação profissional mais comum a isso é o alarme. Acho que o alarme atrapalha mais do que ajuda, porque impede a pergunta que realmente interessa: o que exatamente está acontecendo ali?

O experimento que isolou a variável certa

Em 2014, um grupo de pesquisadores do Institute for Creative Technologies liderado por Gale Lucas montou um estudo com um desenho especialmente elegante. Todos os participantes conversaram com o mesmo agente virtual, sobre os mesmos assuntos. A única coisa manipulada foi a informação que receberam antes: metade foi levada a acreditar que havia uma pessoa real operando o avatar do outro lado; a outra metade, que o sistema era totalmente automatizado.

Os que acreditavam estar falando com um computador relataram menos medo de se revelar, se preocuparam menos em administrar a própria imagem e expressaram tristeza de forma mais intensa. Observadores externos, que não sabiam da manipulação, os avaliaram como mais dispostos a se abrir.

Repare no que isso significa. A máquina era a mesma. As respostas eram as mesmas. O que mudou foi a crença de quem falava sobre estar ou não sendo avaliado.

O alívio não vinha da tecnologia. Vinha da suspensão temporária da sensação de estar sendo julgado.

Isso reposiciona a questão inteira. Quando alguém prefere escrever para um sistema em vez de falar com uma pessoa próxima, o dado mais importante não é sobre a tecnologia. É sobre quanto medo de julgamento essa pessoa carrega nas relações que tem.

O alívio é verdadeiro — e é menos específico do que parece

Um estudo publicado por Annabell Ho, Jeff Hancock e Adam Miner no Journal of Communication em 2018 acrescenta uma peça que costuma ser ignorada nos dois lados do debate. Eles compararam o efeito de fazer uma revelação emocional acreditando falar com um chatbot ou com uma pessoa. Os efeitos foram equivalentes.

A leitura mais provável é que boa parte do benefício de desabafar vem do ato de organizar em palavras o que estava solto — e não da identidade de quem escuta. Isso valida a experiência de quem sente alívio conversando com uma IA: o alívio é real, não é ilusão nem autoengano.

Só que valida em um nível bem específico. Se o benefício vem principalmente de formular o que se sente, então ele é o mesmo benefício de escrever num diário. É útil. Não é tratamento.

O que os estudos mostram sobre eficácia clínica

Aqui é preciso separar duas coisas que a conversa pública mistura o tempo todo: chatbots estruturados, construídos sobre protocolos de Terapia Cognitivo-Comportamental e testados em ensaios clínicos, e modelos de linguagem generalistas como os assistentes de uso cotidiano. Quase toda a evidência disponível se refere aos primeiros.

A revisão sistemática mais ampla até agora, publicada por Sohn e colaboradores no npj Digital Medicine em 2026, reuniu 39 ensaios clínicos randomizados. Para sintomas depressivos, o efeito agrupado foi de g = 0,31; para ansiedade, g = 0,28. São efeitos pequenos. A heterogeneidade entre os estudos foi altíssima — I² entre 85% e 94%, o que significa que os resultados individuais variam muito mais do que o acaso explicaria. E 35 dos 39 estudos foram classificados como de alto risco de viés.

Um detalhe dessa mesma análise merece atenção. O efeito variou conforme a população: foi maior em pessoas com sintomas clínicos (g = 0,64), menor em quadros subclínicos (g = 0,34) e nulo em pessoas sem sintomas (g = 0,07, com intervalo de confiança cruzando o zero). Ou seja, o benefício aparece onde há sofrimento estabelecido, não como ferramenta de bem-estar geral.

Quando se olha exclusivamente para inteligência artificial generativa — que é o que a maioria das pessoas usa —, o quadro fica mais frágil. A revisão de Zhang e colaboradores, publicada no Journal of Medical Internet Research em 2025, encontrou um efeito global que mal escapou do zero e, separando por desfecho, nenhum efeito estatisticamente significativo para ansiedade, estresse ou humor negativo. Vale registrar que quase 70% das intervenções analisadas incluíam alguma forma de acompanhamento humano — não eram sistemas funcionando sozinhos.

E a durabilidade

Este é o ponto que menos aparece nas manchetes. Zhong, Luo e Zhang, no Journal of Affective Disorders em 2024, analisaram 18 ensaios e encontraram efeitos pequenos ao final das intervenções. No seguimento de três meses, não detectaram efeitos substanciais para nenhuma das duas condições. Um padrão parecido aparece em He e colaboradores (2023): os efeitos de curto prazo existem, os de longo prazo em geral não se sustentam.

Há ainda uma comparação que nenhum desses estudos fez: nenhum deles testou chatbot contra psicoterapia conduzida por um profissional. Os grupos de comparação foram lista de espera, materiais informativos, cuidado de rotina e, em um caso, um livro. Quando se lê que um chatbot "funcionou", é contra isso que ele funcionou.

O ponto cego: um sistema treinado para concordar

Em 2026, a Nature publicou um estudo de Lujain Ibrahim, Franziska Hafner e Luc Rocher que investigou o que acontece quando modelos de linguagem são treinados para soar mais calorosos e acolhedores. O resultado é incômodo. Modelos otimizados para calor humano apresentaram taxas de erro de 10 a 30 pontos percentuais maiores, e se tornaram significativamente mais propensos a validar crenças incorretas do usuário — especialmente quando as mensagens do usuário expressavam tristeza.

Leia essa última parte de novo, porque é exatamente o cenário de quem desabafa. Quanto mais triste a pessoa escreve, maior a chance de o sistema concordar com ela.

Se alguém está convencido de que estragou tudo, de que é um peso para os outros, de que não vale a pena tentar de novo — um sistema com essa característica tende a acompanhar essa leitura em vez de examiná-la. Não por má-fé. Por desenho.

A concordância é confortável. Também é o oposto do que faz uma psicoterapia funcionar.

Uma investigação apresentada por Jared Moore e colaboradores na conferência ACM FAccT em 2025 testou modelos de linguagem e chatbots comerciais de "terapia" diante de estímulos clínicos padronizados. Terapeutas humanos responderam de forma adequada em 93% dos casos. Os modelos ficaram, em média, abaixo de 80%, com desempenho particularmente ruim diante de conteúdo delirante. Os chatbots comerciais vendidos como terapêuticos responderam adequadamente em cerca de metade das vezes.

Esses números vêm de cenários de laboratório, com estímulos controlados, e não representam taxas de erro no uso cotidiano. Mas indicam algo sobre os limites do que esses sistemas conseguem reconhecer.

Se você está passando por um momento de crise, o CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, e pelo site cvv.org.br. Em emergências, o SAMU atende pelo 192.

O que a relação terapêutica faz que um modelo não faz

Existe um achado dos mais consistentes em toda a pesquisa em psicoterapia: a qualidade da aliança entre paciente e terapeuta prediz o resultado do tratamento. A síntese meta-analítica de Flückiger, Del Re, Wampold e Horvath, publicada em Psychotherapy em 2018, reuniu 295 estudos independentes e mais de 30 mil pacientes, e encontrou uma associação de r = 0,278 — magnitude aproximadamente duas vezes maior do que o efeito total dos chatbots sobre sintomas depressivos.

O que interessa aqui não é o número, e sim o mecanismo. Em uma revisão publicada na World Psychiatry em 2023, Wampold e Flückiger apontam que os benefícios da aliança se devem majoritariamente à contribuição do terapeuta — e listam entre essas contribuições algo chamado responsividade a rupturas e sua reparação: a capacidade de perceber quando algo se quebrou na relação, sustentar esse desconforto e reconstruir a partir dele.

Um sistema otimizado para concordar nunca produz uma ruptura. E, portanto, nunca repara nenhuma.

Não é um detalhe técnico. Boa parte do que muda em psicoterapia acontece quando alguém devolve uma perspectiva que a pessoa não tinha, discorda com cuidado, aponta uma contradição que ela vinha contornando — e a relação sobrevive a isso. É a experiência de ser visto por inteiro e não ser abandonado que reorganiza alguma coisa. Concordância ilimitada não produz esse efeito, por mais agradável que seja recebê-la.

Uma análise de 2026 do mesmo grupo de pesquisa, sobre intervenções conduzidas pela internet, encontrou algo coerente com isso: nesses formatos, os componentes de tarefa e objetivo se mantêm associados ao resultado, enquanto o vínculo é justamente o componente mais fraco.

Sobre não moralizar essa escolha

Seria fácil terminar aqui com uma recomendação enfática de procurar um profissional. Seria também desonesto com a realidade de acesso.

Um levantamento sobre a lacuna de tratamento nas Américas, publicado por Kohn e colaboradores na Revista Panamericana de Salud Pública em 2018, estimou que 73,1% das pessoas com transtornos moderados a graves na América do Sul não recebem tratamento. Um estudo comunitário conduzido em Itaboraí, no Rio de Janeiro, encontrou uma lacuna de 88% entre crianças e adolescentes com problemas psiquiátricos.

E as barreiras não são só financeiras. Nos inquéritos de saúde mental da Organização Mundial da Saúde analisados por Andrade e colaboradores, entre as pessoas que reconheciam precisar de ajuda, a razão mais comum para não buscá-la foi o desejo de resolver sozinho — 63,8%. Barreiras atitudinais pesaram mais do que barreiras estruturais.

Para uma quantidade grande de pessoas, a alternativa ao chatbot não é a psicoterapia. É o silêncio. Tratar quem recorre a uma IA como alguém negligente ignora esse dado e, de quebra, reforça exatamente o medo de julgamento que levou a pessoa até a tela.

Uma forma mais útil de pensar

Talvez a pergunta não seja se a inteligência artificial substitui a psicoterapia — a evidência disponível não sustenta essa equivalência, e nem foi construída para testá-la.

A pergunta mais interessante é outra: o que aquela conversa às duas da manhã está revelando?

Escrever para uma máquina pode ser um jeito de organizar o pensamento antes de dormir, e isso não tem nada de preocupante. Pode ser também o sinal de que não existe, na vida daquela pessoa, nenhum lugar onde ela possa ser inteira sem ser avaliada. Se for o segundo caso, o problema não se resolve com uma resposta melhor da máquina. Ele aponta para algo que só se constrói dentro de uma relação — inclusive a relação terapêutica, que existe justamente para ser um lugar onde dizer o indizível não custa nada.

Também vale prestar atenção a três coisas: se as conversas com a IA estão substituindo contato humano em vez de acompanhá-lo; se o sofrimento vem se mantendo ou se agravando apesar delas; e se o que você recebe de volta é quase sempre concordância. Nenhuma dessas observações é diagnóstico de nada — são apenas informações sobre o que aquele hábito está fazendo por você.

A tecnologia deu a muita gente um espaço onde é possível falar sem medo. Isso não é pouca coisa. Vale só não confundir a ausência de julgamento com a presença de alguém.

Limites desta leitura

As pesquisas citadas apresentam efeitos pequenos, alta heterogeneidade entre estudos e risco de viés elevado na maior parte dos ensaios. Nenhuma delas comparou chatbots com psicoterapia conduzida por profissional, e não há evidência de efeitos que se sustentem no longo prazo. As associações descritas não estabelecem relações de causa e efeito. Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação individual.

Referências

  1. Sohn, J.-S., Ha, B.-G., Park, S., Kim, J.-J., Lee, E., Oh, H., Lee, S., & Kim, E. (2026). Systematic review and meta-analysis of chatbots in the management of depressive and anxiety symptoms. npj Digital Medicine, 9, 377. doi.org/10.1038/s41746-026-02566-w
  2. Zhang, Q., Zhang, R., Xiong, Y., Sui, Y., Tong, C., & Lin, F.-H. (2025). Generative AI mental health chatbots as therapeutic tools: Systematic review and meta-analysis of their role in reducing mental health issues. Journal of Medical Internet Research. doi.org/10.2196/78238
  3. Zhong, W., Luo, J., & Zhang, H. (2024). The therapeutic effectiveness of artificial intelligence-based chatbots in alleviation of depressive and anxiety symptoms in short-course treatments: A systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders. doi.org/10.1016/j.jad.2024.04.057
  4. He, Y., Yang, L., Qian, C., Li, T., Su, Z., Zhang, Q., & Hou, X. (2023). Conversational agent interventions for mental health problems: Systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Journal of Medical Internet Research. doi.org/10.2196/43862
  5. Ibrahim, L., Hafner, F. S., & Rocher, L. (2026). Training language models to be warm can reduce accuracy and increase sycophancy. Nature. doi.org/10.1038/s41586-026-10410-0
  6. Moore, J., Grabb, D., Agnew, W., Klyman, K., Chancellor, S., Ong, D. C., & Haber, N. (2025). Expressing stigma and inappropriate responses prevents LLMs from safely replacing mental health providers. Proceedings of the 2025 ACM Conference on Fairness, Accountability, and Transparency (FAccT '25), 599–627. doi.org/10.1145/3715275.3732039
  7. Lucas, G. M., Gratch, J., King, A., & Morency, L.-P. (2014). It's only a computer: Virtual humans increase willingness to disclose. Computers in Human Behavior, 37, 94–100. doi.org/10.1016/j.chb.2014.04.043
  8. Ho, A., Hancock, J., & Miner, A. S. (2018). Psychological, relational, and emotional effects of self-disclosure after conversations with a chatbot. Journal of Communication. doi.org/10.1093/joc/jqy026
  9. Flückiger, C., Del Re, A. C., Wampold, B. E., & Horvath, A. O. (2018). The alliance in adult psychotherapy: A meta-analytic synthesis. Psychotherapy, 55(4). doi.org/10.1037/pst0000172
  10. Wampold, B. E., & Flückiger, C. (2023). The alliance in mental health care: Conceptualization, evidence and clinical applications. World Psychiatry. doi.org/10.1002/wps.21035
  11. Flückiger, C., Schweizer, A. M., Boehme, M. S., Goméz Penedo, J. M., Berger, T., & Wampold, B. E. (2026). Alliance in internet-based interventions: A systematic review and correlation multilevel meta-analysis. Journal of Consulting and Clinical Psychology. doi.org/10.1037/ccp0001005
  12. Kohn, R., Ali, A. A., Puac-Polanco, V., Figueroa, C., López-Soto, V., Morgan, K., Saldivia, S., & Vicente, B. (2018). Mental health in the Americas: An overview of the treatment gap. Revista Panamericana de Salud Pública, 42, e165. doi.org/10.26633/RPSP.2018.165
  13. Andrade, L. H., Alonso, J., Mneimneh, Z., Wells, J. E., et al. (2014). Barriers to mental health treatment: Results from the WHO World Mental Health surveys. Psychological Medicine. doi.org/10.1017/S0033291713001943
  14. Duarte, C. S., Lovero, K. L., Sourander, A., Ribeiro, W. S., & Bordin, I. A. S. (2022). The child mental health treatment gap in an urban low-income setting: Multisectoral service use and correlates. Psychiatric Services. doi.org/10.1176/appi.ps.202000742
  15. Conselho Federal de Psicologia. (2025). Nota de posicionamento sobre inteligência artificial no contexto da prática psicológica. site.cfp.org.br

Se a leitura mexeu com alguma coisa e você considera começar um processo terapêutico, estarei à disposição para conversar.

Conversar com Rebecca