Em março de 2026, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística publicou os resultados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, conhecida como PeNSE. A pesquisa ouviu 118.099 adolescentes entre 13 e 17 anos, em 4.167 escolas públicas e privadas de todo o país. Um dos achados que circulou amplamente pela imprensa: 30% relataram sentir tristeza com frequência ou quase sempre.
Esse número precisa de contexto antes de qualquer interpretação. Sentir tristeza frequentemente não é, por si só, critério diagnóstico para depressão — e a pesquisa não foi desenhada para diagnosticar. É uma medida de autorrelato em larga escala, que captura sofrimento emocional, não psicopatologia. A distinção importa porque tristeza frequente e transtorno depressivo maior exigem intervenções diferentes, e tratar os dois como sinônimos prejudica quem lê e prejudica o dado.
Com isso dito: os números são preocupantes por outros motivos. E a diferença entre meninas e meninos, em particular, é grande o suficiente para merecer atenção cuidadosa.
O que o PeNSE 2024 mostra
Entre os indicadores levantados pela pesquisa, o contraste por sexo aparece de forma consistente. Enquanto 16,7% dos meninos relataram tristeza persistente, o número entre as meninas foi de 41%. Na mesma direção: 43,4% das meninas e 20,5% dos meninos declararam já ter sentido vontade de se machucar propositalmente. Sobre a percepção de que a vida não valeria a pena, a proporção foi de 25% entre meninas e 12% entre meninos.
Esses dados descrevem um sofrimento que não é marginal e que é distribuído de forma desigual por sexo. Mas dizem pouco sobre as causas dessa desigualdade — e é justamente aí que entra a pesquisa científica.
Isso não é exclusivo do Brasil
A diferença de gênero no sofrimento emocional adolescente é um padrão internacional, documentado em décadas de pesquisa. Uma análise publicada em 2025 no Frontiers in Public Health por Zhao e colaboradores, baseada no Global Burden of Disease Study 2021, acompanhou a carga de transtornos depressivos em adolescentes e adultos jovens de 1990 a 2021. O número global de casos entre 15 e 39 anos cresceu 62,91% no período, e mulheres apresentaram taxas de incidência consistentemente mais altas em todos os grupos etários.
Uma revisão publicada em 2026 na revista Healthcare, assinada por Ricci e colaboradores, reuniu 21 estudos conduzidos entre 2015 e 2025 e examinou diferenças de gênero em cinco categorias de transtornos psiquiátricos na adolescência. O padrão que emergiu é coerente: meninas apresentam taxas mais altas de sintomas depressivos, ansiosos e de autolesão; meninos, taxas mais altas de TDAH, transtornos de conduta e uso de substâncias. São perfis distintos, não magnitudes distintas de sofrimento.
Um artigo publicado no Journal of Clinical Medicine em 2025 por Toro e colaboradores sintetiza o que se sabe sobre as diferenças de sexo em depressão, ansiedade e comportamento suicida na adolescência: meninas têm prevalência de depressão quase duas vezes maior; as tentativas de suicídio são mais frequentes entre meninas; as mortes por suicídio são mais frequentes entre meninos. Esse cruzamento — mais tentativas em um grupo, mais mortes no outro — reflete diferenças nos métodos usados e na expressão do sofrimento, não necessariamente diferenças no nível de dor.
Por que essa diferença existe
Não existe uma causa única. O que a literatura aponta é uma confluência de fatores que se reforçam, e que variam em peso conforme o contexto cultural e individual.
Fatores biológicos
A puberdade feminina ocorre em média mais cedo, e o salto hormonal que a acompanha está associado ao aumento dos sintomas depressivos. Meninas que passam pela puberdade precocemente têm risco maior de depressão do que as de maturação mais tardia — e o mesmo padrão não aparece de forma tão consistente entre meninos. Há também diferenças na reatividade ao estresse: estudos indicam maior sensibilidade a ameaças interpessoais e estressores relacionais no sexo feminino, associada a padrões distintos de ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Esses dados vêm principalmente de estudos longitudinais e neurobiológicos; são correlações, não determinismos.
Fatores psicológicos
Um dos mecanismos mais estudados é a ruminação — a tendência de ficar girando em torno de pensamentos negativos em vez de desviar a atenção ou agir. Meninas adolescentes, em média, apresentam estilos de coping mais ruminativos do que meninos da mesma idade, o que está associado a maior duração e intensidade dos episódios de humor negativo.
Há também a questão da imagem corporal. O PeNSE 2024 registrou uma queda na satisfação com a aparência entre 2019 e 2024, de 66,5% para 58%. Entre as meninas, o descontentamento com a aparência foi relatado por 36,1% — contra 18,2% dos meninos. Insatisfação com o corpo não produz, por si só, depressão ou ansiedade. Mas é um fator de risco estabelecido, especialmente quando associado a comparação social intensa.
Fatores sociais e culturais
Meninas são, em média, mais expostas a pressões relacionadas a aparência, desempenho e relacionamentos, e são mais frequentemente alvo de violência sexual e relacional. A socialização de gênero também molda o que é permitido expressar: meninas são mais autorizadas a mostrar tristeza e ansiedade; meninos, a mostrar raiva ou a não mostrar nada. Isso não significa que meninos sofrem menos — significa que o sofrimento deles muitas vezes fica invisível até escalar para condutas de risco ou comportamento agressivo.
Redes sociais: o que os dados realmente mostram
A associação entre redes sociais e saúde mental de adolescentes virou consenso popular antes de virar consenso científico. O que a pesquisa mais recente mostra é mais matizado.
Uma umbrella review publicada em 2026 na revista Child and Adolescent Mental Health por Tølbøll e colaboradores reuniu 72 revisões — incluindo 20 meta-análises — com 1.070 estimativas de efeito. A conclusão central: o uso geral de redes sociais apresentou associações fracas e inconsistentes com bem-estar e mal-estar. O uso problemático — caracterizado por perda de controle, interferência nas atividades cotidianas e uso como fuga de emoções negativas — foi consistentemente associado a piora no bem-estar.
A distinção tem implicações práticas. "Meu filho fica muito no celular" não descreve a mesma situação que "meu filho usa o celular para escapar de sentimentos que não sabe nomear e fica irritável quando não consegue acessá-lo". A segunda descrição pede uma conversa diferente — não sobre o tempo de tela, mas sobre o que está sendo evitado.
O uso problemático de redes sociais parece ser tanto sintoma quanto fator de risco. Tratar apenas o acesso sem entender a função que ele cumpre tende a não resolver nada.
O sofrimento de meninos também precisa de atenção
Os dados sobre meninas são alarmantes, e é razoável que tenham recebido mais cobertura. Mas uma leitura cuidadosa do PeNSE 2024 e da literatura internacional revela que meninos também estão em sofrimento — apenas de formas que se tornam visíveis mais tarde, quando já escalaram.
16,7% dos meninos relatando tristeza persistente não é um número pequeno. E a combinação de menor probabilidade de pedir ajuda, menor acesso a vocabulário emocional e maior taxa de mortalidade por suicídio — mesmo com menos tentativas — configura um quadro que exige intervenção específica, não a suposição de que estão bem porque reclamam menos.
O que a evidência diz sobre intervenções
A Terapia Cognitivo-Comportamental tem o corpo de evidência mais robusto para depressão e ansiedade na adolescência. Uma revisão sistemática publicada em 2024 no Campbell Systematic Reviews por Bjornstad e colaboradores analisou 68 ensaios clínicos randomizados com 6.435 participantes, comparando cinco formatos de entrega da TCC em adolescentes com sintomas elevados de depressão.
Os resultados logo após as intervenções favoreceram a TCC sobre nenhum tratamento — mas os efeitos diminuíram substancialmente no seguimento de 6 a 12 meses. Nenhum formato se mostrou claramente superior. E a heterogeneidade entre os estudos foi moderada, o que significa que resultados individuais variam bastante.
Isso não invalida a TCC — significa que o tratamento funciona, mas não de forma uniforme para todos, e que a manutenção dos ganhos exige atenção continuada. Também sugere que identificar o adolescente que precisa de suporte cedo, antes do agravamento, é tão importante quanto o protocolo de tratamento escolhido.
O PeNSE 2024 registrou que apenas 45,8% dos alunos de escolas públicas frequentam instituições com algum suporte psicológico disponível. O número em escolas privadas foi de 58,2%. Em ambos os casos, a maioria dos adolescentes brasileiros está em ambientes que não têm profissional de saúde mental disponível — o que torna qualquer conversa sobre intervenção precoce essencialmente teórica para uma grande parcela da população.
Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento de crise, o CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, e pelo site cvv.org.br. Em emergências, o SAMU atende pelo 192.
Uma leitura responsável dos dados
Os dados do PeNSE 2024 descrevem um sofrimento real, amplo e distribuído de forma desigual. Não são pretexto para alarme generalizado — nem deveriam ser descartados como ruído de uma geração mais sensível.
O que eles pedem é atenção diferenciada: à diferença entre sofrimento e diagnóstico; à diferença entre uso de redes sociais e uso problemático; à diferença entre o sofrimento visível de meninas e o sofrimento menos visível de meninos; e à diferença entre intervenção profissional e conselho bem-intencionado.
Adolescentes que expressam tristeza, cansaço ou vontade de se isolar não estão, necessariamente, desenvolvendo um transtorno. Mas estão sinalizando algo. A resposta mais útil — para um pai, uma mãe, um educador — raramente é uma solução imediata. É a disposição de ouvir sem interromper, sem minimizar e sem transformar a conversa em uma avaliação do quanto a situação é grave o suficiente para merecer ajuda.
Quando a dúvida sobre a gravidade persistir, a avaliação profissional existe justamente para isso.